Bolsa Família, os boatos e os saques.
Artigo de Marco Villa em Política Nacional, PT em maio 25, 2013
Segundo a Folha de S. Paulo de hoje, a CEF liberou o pagamento de todos os benefícios, mais de 2 bilhões de reais!!!, no dia anterior aos boatos.
Tudo continua muito estranho. Por que antecipar os pagamentos? Houve alguma ação orquestrada entre a antecipação dos pagamentos e os boatos?
Uma empresa de telemarketing seria a responsável pela mobilização de milhares de pessoas? Se for, precisamos saber o nome e contratar seus serviços para mobilizar a população!!
A história ainda não bate. Na sexta a CEF libera antecipadamente os pagamentos de bilhões de reais (não custa recordar que para efetuar os saques de um valor total tão alto é necessário uma complexa logística). No sábado começam os boatos (que se espalham por todo o país em horas – caso único na história do Brasil). E na segunda a presidente chama os boateiros de “desumanos” e Lula de “gente do mal”. Dilma surge como justiceira e insinua que os “pessimistas” é que seriam os responsáveis pelos boatos (teve também, no sábado, a declaração de uma desconhecida ministra de alguma coisa acusando a oposição pelos boatos). E a oposição, fez algo? Ao menos, protestou? Buscou investigar? Ou teve medo?
Renan Calheiros presidente. Merecemos?
Artigo de Marco Villa em Política Nacional, PT em maio 24, 2013
Nos merecemos ter no mais alto cargo da república o senador Renan Calheiros? Presumo que não. Claro que pode ter alguém de Murici (AL) que pense o contrário. Na verdade, não pensa, com todo respeito. Responde com o bolso. E aguentar o Renan na presidência da República é demais. Como diria o Lula, “menas, menas”.
Mas, deixando Murici de lado, vale a pena pensar esta anomalia tipicamente brasileira. A Constituição de 1988 no artigo 83 diz que uma ausência do país de mais de 15 dias do presidente da República necessita de uma licença do Congresso (artigo 83). Mas não especifica a necessidade da transferência do cargo. O vice-presidente deve substituir o presidente apenas em caso de impedimento. A ele caberá “missões especiais” e ter “outras atribuições que lhe forem conferidas por lei complementar. ” (artigo 79) Nunca houve lei complementar, porém, a cada viagem internacional, por menor que seja o percurso, como ir ao Paraguai, o presidente transfere o governo ao vice. Houve casos em que por alguma impossibilidade do vice, o presidente da Câmara assumiu o governo. Chegou-se aso ponto de ser necessário convocar o presidente do Supremo Tribunal Federal.
Quando de uma viagem internacional, portanto, o país tem dois presidentes (como agora). E os dois com autoridade legal para cumprir todas as atribuições do artigo 84. Coisas do Brasil, de um país fantástico. Hoje temos dois presidentes: Renan, aqui; e lá na África, Dilma. O país merece isso? Temos algum carma especial?
Luis Roberto Barroso, STF e o julgamento do mensalão.
Artigo de Marco Villa em Poder Judiciário, Política Nacional, PT em maio 23, 2013
Segue link do debate de hoje na Veja: http://veja.abril.com.br/multimidia/video/julgamento-do-mensalao-o-novo-ministro-do-stf
Falácias da luta armada
Artigo de Marco Villa em Ética, Política Nacional, Regime militar em maio 22, 2013
Publicou mais uma vez este artigo que saiu na Folha de S. Paulo em 19 de maio de 2008. Faço para aprofundar a discussão sobre a Comissão da Verdade.
TENDÊNCIAS/DEBATES
Falácias sobre a luta armada na ditadura
MARCO ANTONIO VILLA
Militantes de grupos de luta armada criaram um discurso eficaz. Quem questiona “vira” adepto da ditadura. Assim, evitam o debate
A LUTA armada, de tempos em tempos, reaparece no noticiário. Nos últimos anos, foi se consolidando uma versão da história de que os guerrilheiros combateram a ditadura em defesa da liberdade. Os militares teriam voltado para os quartéis graças às suas heróicas ações. Em um país sem memória, é muito fácil reescrever a história. É urgente enfrentarmos essa falácia. A luta armada não passou de ações isoladas de assaltos a bancos, seqüestros, ataques a instalações militares e só. Apoio popular? Nenhum. O regime militar acabou por outras razões.
Argumentam que não havia outro meio de resistir à ditadura, a não ser pela força. Mais um grave equívoco: muitos dos grupos existiam antes de 1964 e outros foram criados logo depois, quando ainda havia espaço democrático (basta ver a ampla atividade cultural de 1964-1968). Ou seja, a opção pela luta armada, o desprezo pela luta política e pela participação no sistema político e a simpatia pelo foquismo guevarista antecedem o AI-5 (dezembro de 1968), quando, de fato, houve o fechamento do regime. O terrorismo desses pequenos grupos deu munição (sem trocadilho) para o terrorismo de Estado e acabou usado pela extrema-direita como pretexto para justificar o injustificável: a barbárie repressiva.
Todos os grupos de luta armada defendiam a ditadura do proletariado. As eventuais menções à democracia estavam ligadas à “fase burguesa da revolução”. Uma espécie de caminho penoso, uma concessão momentânea rumo à ditadura de partido único. Conceder-lhes o estatuto histórico de principais responsáveis pela derrocada do regime militar é um absurdo. A luta pela democracia foi travada nos bairros pelos movimentos populares, na defesa da anistia, no movimento estudantil e nos sindicatos. Teve na Igreja Católica um importante aliado, assim como entre os intelectuais, que protestaram contra a censura. E o MDB, nada fez? E seus militantes e parlamentares que foram perseguidos? E os cassados?
Quem contribuiu mais para a restauração da democracia: o articulador de um ato terrorista ou o deputado federal emedebista Lisâneas Maciel, defensor dos direitos humanos, que acabou sendo cassado pelo regime militar em 1976? A ação do MDB, especialmente dos parlamentares da “ala autêntica”, precisa ser relembrada. Não foi nada fácil ser oposição nas eleições na década de 1970.
Os militantes dos grupos de luta armada construíram um discurso eficaz. Quem questiona é tachado de adepto da ditadura. Assim, ficam protegidos de qualquer crítica e evitam o que tanto temem: o debate, a divergência, a pluralidade, enfim, a democracia. Mais: transformam a discussão política em questão pessoal, como se a discordância fosse uma espécie de desconsideração dos sofrimentos da prisão. Não há relação entre uma coisa e outra: criticar a luta armada não legitima o terrorismo de Estado.
Precisamos romper o círculo de ferro construído, ainda em 1964, pelos inimigos da democracia, tanto à esquerda como à direita. Não podemos ser reféns, historicamente falando, daqueles que transformaram o adversário, em inimigo; o espaço da política, em espaço de guerra.
Um bom caminho para o país seria a abertura dos arquivos do regime militar. Dessa forma, tanto a ação contrária ao regime como a dos “defensores da ordem” poderiam ser estudadas, debatidas e analisadas. Parece, porém, que o governo não quer. Optou por uma espécie de “cala-boca” financeiro. Rentável, é verdade.
Injusto, também é verdade. Tanto pelo pagamento de indenizações milionárias a privilegiados como pelo abandono de centenas de perseguidos que até hoje não receberam nenhuma compensação. É fundamental não só rever as indenizações já aprovadas como estabelecer critérios rigorosos para os próximos processos. Enfim, precisamos romper os tabus construídos nas últimas quatro décadas: criticar a luta armada não é apoiar a tortura, assim como atacar a selvagem repressão do regime militar não é defender o terrorismo.
O pagamento das indenizações não pode servir como cortina de fumaça para encobrir a história do Brasil. Por que o governo teme a abertura dos arquivos? Abrir os arquivos não significa revanchismo ou coisa que o valha.
O desinteresse do governo pelo tema é tão grande que nem sequer sabe onde estão os arquivos das Forças Armadas e dos órgãos civis de repressão.
Mantê-los fechados só aumenta os boatos e as versões fantasiosas.
Reparação, o filme.
Artigo de Marco Villa em Ética, Política Nacional em maio 22, 2013
Segue link do trailer do filme “Reparação”: http://www.youtube.com/watch?v=8d61_1u1s2o
Suplicy diz que foi roubado porque não foi criada a renda básica de cidadania
Artigo de Marco Villa em Política Nacional, PT em maio 22, 2013
Hoje, na Folha de S. Paulo, tem um artigo de Eduardo Suplicy. Comenta a Virada Cultural e o furto da sua carteira, documentos e celular. Como de hábito, é muito engraçado. Mas uma passagem se destaca. O senador apresenta sua faceta de sociólogo. E saber que desde 1991 ele representa o estado de São Paulo no Senado…………
Segue uma das melhores passagens do artigo:
“Haddad me disse que, se já tivesse implantado a renda básica de cidadania, muito provavelmente não teriam levado minha carteira e celular.”
180 dias: o silêncio de Lula e o caso Rosemary Noronha
Artigo de Marco Villa em Ética, Política Nacional, PT em maio 21, 2013
Hoje completa um semestre de absoluto silêncio de Lula sobre as suas relações com a “amiga íntima” Rosemary Noronha. Em dezembro solicitei que o ex-presidente falasse publicamente sobre o caso. Silêncio total. Será que algum jornalista, quando tiver oportunidade, pois Lula está fugindo da imprensa desde novembro de 2012, vai perguntar sobre as relações dele com sua “amiga íntima”? Segue o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=oFxFjzKjS9Y
Bolsa Família e os boatos
Artigo de Marco Villa em Política Nacional, PT em maio 21, 2013
Este episódio ainda está muito nebuloso. É tudo muito estranho. Vale algumas perguntas:
1. Como começou? Pela simples transmissão oral? Mas como atingiu vários estados?
2. Como a CEF abasteceu os caixas eletrônicos? Tinha o dinheiro disponível? Mas o transporte do dinheiro não depende de um agendamento com as transportadoras? Elas foram avisadas na hora? Tinham veículos disponíveis? E os guardas estavam avisados?
3. Adiantar o benefício? Como? E para dezenas de milhares de beneficiados? Qual o mecanismo de controle?
4. A quem interessa tal boato?
5. A declaração da ministra (?) Maria do Rosário não poderia ser parte de uma tentativa de emparedar a oposição?
6. Não foi estranha a declaração da presidente associando os “pessimistas” e logo depois falou dos “boatos criminosos”?
7. Não pode ser um prenúncio de como vai ser a campanha eleitoral do ano que vêm?
8. Vale a pena recordar a frase do ex-seminarista Gilberto Carvalho: “Em 2013 o bicho vai pegar”.
Verdade? Que verdade?
Artigo de Marco Villa em Ética, Política Nacional, PT, Regime militar em maio 19, 2013
Republico artigo que saiu n’O Globo em 22 de maio de 2012.
MARCO ANTONIO VILLA
Foi saudada como um momento histórico a designação dos membros da Comissão da Verdade. Como tudo se movimenta lentamente na presidência de Dilma Rousseff, o fato ocorreu seis meses após a aprovação da lei 12.528. Não há qualquer justificativa para tanta demora. Durante o trâmite da lei o governo poderia ter desenhando, ao menos, o perfil dos membros, o que facilitaria a escolha.
Houve, na verdade, um desencontro com a história. O momento para a criação da comissão deveria ter sido outro: em 1985, quando do restabelecimento da democracia. Naquela oportunidade não somente seria mais fácil a obtenção das informações, como muitos dos personagens envolvidos estavam vivos. Mas ─ por uma armadilha do destino ─ quem assumiu o governo foi José Sarney, sem autoridade moral para julgar o passado, pois tinha sido participante ativo e beneficiário das ações do regime militar.
O tempo foi passando, arquivos foram destruídos e importantes personagens do período morreram. E para contentar um setor do Partido dos Trabalhadores ─ aquele originário do que ficou conhecido como luta armada ─ a presidente resolveu retirar o tema do esquecimento. Buscou o caminho mais fácil ─ o de criar uma comissão ─ do que realizar o que significaria um enorme avanço democrático: a abertura de todos os arquivos oficiais que tratam daqueles anos.
É inexplicável o período de 42 anos para que a comissão investigue as violações dos direitos humanos. Retroagir a 1946 é um enorme equívoco, assim como deveria interromper as investigações em 1985, quando, apesar da vigência formal da legislação autoritária, na prática o país já vivia na democracia ─ basta recordar a legalização dos partidos comunistas. Se a extensão temporal é incompreensível, menos ainda é o prazo de trabalho: dois anos. Como os membros não têm dedicação exclusiva e, até agora, a estrutura disponibilizada para os trabalhos é ínfima, tudo indica que os resultados serão pífios. E, ainda no terreno das estranhezas e sem nenhum corporativismo, é, no mínimo, extravagante que tenha até uma psiquiatra na comissão e não haja lugar para um historiador.
A comissão foi criada para “efetivar o direito à memória e a verdade histórica”. O que é “verdade histórica”? Pior são os sete objetivos da comissão (conforme artigo 3º), ora indefinidos, ora extremamente amplos. Alguns exemplos: como a comissão agirá para que seja prestada assistência às vítimas das violações dos direitos humanos? E como fará para “recomendar a adoção de medidas e políticas públicas para prevenir violação de direitos humanos, assegurar sua não repetição e promover a efetiva reconciliação nacional”? De que forma é possível “assegurar sua não repetição”?
O encaminhamento dado ao tema pelo governo foi desastroso. Reabriu a discussão sobre a lei de anistia, questão que já foi resolvida pelo STF em 2010. A anistia foi fundamental para o processo de transição para a democracia. Com a sua aprovação, em 1979, milhares de brasileiros retornaram ao país, muitos dos quais estavam exilados há 15 anos. Luís Carlos Prestes, Gregório Bezerra, Miguel Arraes, Leonel Brizola, entre os mais conhecidos, voltaram a ter ativa participação política. Foi muito difícil convencer os setores ultraconservadores do regime militar que não admitiam o retorno dos exilados, especialmente de Leonel Brizola, o adversário mais temido ─ o PT era considerado inofensivo e Lula tinha bom relacionamento com o general Golbery do Couto e Silva.
Não é tarefa fácil mexer nas feridas. Há o envolvimento pessoal, famílias que tiveram suas vidas destruídas, viúvas, como disse o deputado Alencar Furtado, em 1977, do “quem sabe ou do talvez”, torturas, desaparecimentos e mortes de dezenas de brasileiros. Mas ─ e não pode ser deixado de lado ─ ocorreram ações por parte dos grupos de luta armada que vitimaram dezenas de brasileiros. Evidentemente que são atos distintos. A repressão governamental ocorreu sob a proteção e a responsabilidade do Estado. Contudo, é possível enquadrar diversos atos daqueles grupos como violação dos direitos humanos e, portanto, incurso na lei 12.528.
O melhor caminho seria romper com a dicotomia ─ recolocada pela criação da comissão ─ repressão versus guerrilheiros ou ação das forças de segurança versus terroristas, dependendo do ponto de vista. É óbvio que a ditadura ─ e por ser justamente uma ditadura ─ se opunha à democracia; mas também é evidente que todos os grupos de luta armada almejavam a ditadura do proletariado (sem que isto justifique a bárbara repressão estatal). Nesta guerra, onde a política foi colocada de lado, o grande derrotado foi o povo brasileiro, que teve de suportar durante anos o regime ditatorial.
A presidente poderia ter agido como uma estadista, seguindo o exemplo do sul-africano Nelson Mandela, que criou a Comissão da Verdade e Reconciliação. Lá, o objetivo foi apresentar publicamente ─ várias sessões foram transmitidas pela televisão ─ os dois campos, os guerrilheiros e as forças do apartheid. Tudo sob a presidência do bispo Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz. E o país pôde virar democraticamente esta triste página da história. Mas no Brasil não temos um Mandela ou um Tutu.
Pelas primeiras declarações dos membros da comissão, continuaremos prisioneiros do extremismo político, congelados no tempo, como se a roda da história tivesse parado em 1970. Não avançaremos nenhum centímetro no processo de construção da democracia brasileira. E a comissão será um rotundo fracasso.
