Falando um pouco de cultura brasileira

Artigo de Marco Villa em agosto 30, 2011
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Entrevista para a revista eletrônica Sibila:

Entrevista de Marco Antonio Villa a Régis Bonvicino | E-mail

Régis Bonvicino: Houve consequências dos atentados de 11 de setembro de 2001 no que se refere ao Brasil?

Marco Antonio Villa: Para o Brasil teve pouca consequência. Mas, em termos de política externa sul-americana, foi importante. Como os EUA concentraram seus interesses e atenções no Oriente Médio, “sobrou” um espaço vazio na América do Sul. E não há, em política, espaço que fique vazio nem por um segundo. O vazio foi ocupado pelo Brasil (mesmo encontrando resistências da Argentina e, principalmente, da Venezuela). As medidas antiterroristas não tiveram qualquer efeito. Mesmo nos aeroportos, a revista é “teatro”. Ninguém imagina (ainda bem!) que seja possível algum atentado terrorista no Brasil (aqui Bin Laden virou máscara de carnaval). As nossas fronteiras continuaram despoliciadas exatamente como antes do 11 de setembro. O nosso principal adversário não é o terrorismo, mas o tráfico de drogas.

RB: O 11 de setembro estimulou o imaginário da criminalidade comum no Brasil?

MAV: Não creio. A criminalidade local tem um movimento próprio, singular. Tornou-se mais especializada, seguindo o ritmo das mudanças tecnológicas. Mas nada além disso. Aqui não temos crime organizado tout court. Há quadrilhas que buscam apenas operar de forma mais organizada. Não é possível compará-las, no entanto, com as quadrilhas que operam nos EUA. A criminalidade nativa só ganhou importância devido à ineficiência e à corrupção públicas, cada vez maiores.

RB: Há alguma semelhança palpável entre cultura americana e brasileira?

MAV: Não. Temos formação muito distinta. Algum paralelo é possível estabelecer com um ou outro país da Europa ocidental.

RB: Você acha que o Brasil tem uma cultura insular em razão da língua portuguesa e ou em razão de outras causas?

MAV: A língua dificulta. Afinal, o português sobrevive graças à importância cultural e econômica do Brasil. As antigas colônias portuguesas na África, a cada dia, se afastam do português como língua nacional. Em Timor Leste ocorre o mesmo processo. Não deve ser acidental. Mas a pergunta é mais complexa. É chato dizer, mas a cultura brasileira (e latino-americana) é muito inferior à chinesa, japonesa, francesa, americana, inglesa etc.

RB: O Brasil é hoje basicamente um exportador de matérias-primas. Como ficam as teorias antropofágicas de Oswald de Andrade, ao propor a devoração das ideias do colonizador e a reposição de suas influências como um produto original, próprio, brasileiro, em escala internacional? Essa tópica não lhe parece ingênua e datada?

MAV: A música popular deve ser a única área onde temos importância internacional no campo cultural (mesmo assim, uma influência limitada, relativa). Sem querer ser chato, considero o modernismo de 1922 uma invenção da crítica literária paulista. A imagem da antropofagia cultural é inteligente, porém inócua. Todas as culturas desenvolveram (e desenvolvem) esse mecanismo de “antropofagia”.

RB: Você concorda que exportamos apenas futebol, MPB e carnaval, em termos culturais? Por quê?

MAV: É verdade. Para mudar teria de existir uma forte presença do Estado “exportando” nossos produtos culturais (como na tradução dos nossos escritores, por exemplo). E sobretudo uma produção cultural de melhor qualidade. Sinceramente, acho que temos muitos espaços culturais e pouca produção cultural de qualidade. O país não tem compromisso com a cultura.

RB: Como vê o mundo dez anos depois dos atentados?

MAV: É muito mais complexo. Na verdade, a complexidade aumentou com o fim da Guerra Fria. Até aquele momento – e durante quase quatro décadas – o mundo estava dividido em duas partes. Qualquer conflito tinha de se encaixar de um lado ou do outro. E a pronta ação das superpotências emprestavam certo equilíbrio àqueles conflitos. Era a barbárie sob controle. Hoje temos a barbárie incontrolável e fortemente marcada pelo fundamentalismo de todos os naipes. O mundo ficou muito mais tenso e com enorme dificuldade para encontrar soluções localizadas nas áreas em conflito. Mas as mudanças econômicas continuaram. A China foi assumindo um protagonismo, a cada ano, maior (e foi, dos grandes países, o que menos perdeu nesta década – basta ver o custo das guerras travadas pelos EUA e comparar com os gastos militares dos chineses).

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  1. #1 por Joaquim em agosto 30, 2011 - 11:51 am

    Uma nova ordem mundial nasceu após o 11 de setembro. Tal conceito é bastante relevante nos EUA, mas me questiono: é palpável afirmar isso quando o assunto somos nós?

    Não deixo de concordar com o que disseste, Villa: não temos compromisso algum com a cultura. Isso se reflete cotidianamente em minha vida. Reflita comigo:

    - Somos uma nação bastante violenta e nossa música ”popular” é, por muito, um choramingo incessante, uma calmaria sem fim; a espontaneidade da violência, se é que há, nos assusta -quando nos atinge- e poucos de nós a planificam no processo cultural, transformando-a, por exemplo, em arte.
    - Não temos praticamente nenhum livro de ficção científica. O brasileiro não quer ou não consegue enxergar o futuro e filosofar sobre o mesmo?
    - A nossa literatura infantil e juvenil é rica e se ”concebeu” através dos esforços de uma mente brilhante (Monteiro Lobato), mas me parece que hoje nossas crianças se concentram em banalidades, distanciando-se cada vez mais do que já tivemos de melhor. Talvez reflexo da opressão criada pela própria sociedade nas últimas décadas ou da negação de que ”aquele Brasil onde crianças andavam descalças pelas ruas, pescavam e empinavam pipas não existe mais”?

    Configurar uma cultura brasileira é um processo complicadíssimo, ainda mais se enxergarmos tal acontecimento à luz de uma cidade como a que vivo, São Paulo, onde somos literalmente alvejados por diversas outras perspectivas e culturas que nos aparentam ser mais aproximáveis, mesmo partindo de locais cujo modo de vida é extremamente diferente.

    Ficamos assim oprimidos no nosso cantinho e, ainda por cima, taxados de sem rumo, sem cultura?

  2. #2 por Dawran Numida em agosto 31, 2011 - 1:47 pm

    No ponto em que Joaquim – 30 de agosto de 2011 11:51, aborda Monteiro Lobato e as crianças, diga-se que a ideologia pode estar prejudicando a cultura. Vide tentativas de colocar “notas de rodapé” no livro “As Aventuras de Pedrinho”, por alegado racismo na obra. Ou ainda, não referindo-se a Monteiro Lobato, mas as modificações realizadas em cantigas infantis como “Atirei o Pau no Gato”. Isso com a nefasta interferência do “politicamente correto”, como se as pessoas fossem um bando de imbecis, necessitando de vigias culturais e comportamentais.
    Olhando de outra forma, os 21 anos de censura, quando acabaram, não geraram nada de modificador no hábito de ler, de fazer cinema, teatro. São praticamente as mesmas pessoas fazendo quase sempre a mesma coisa, ou seja, vivendo de glórias desde meados dos anos 60, dos anos 70 e 80.
    Nem a “arte engajada” trouxe alguma novidade, exceto o apoio a governos e realização de obras utilizando, óbvio, sem generalizar, incentivos fiscais.

  3. #3 por Anonymous em agosto 31, 2011 - 4:49 pm

    Infelizmente nosso país é pobre mesmo, cultura pobre, com raras e excepcionais exceções, tal como Milton Nascimento, só para citar o meu favorito.

    E essa pobreza só vai diminuir quando as pessoas tiverem tempo e paz (no sentido financeiro) para apreciar o que é belo.

  4. #4 por barbarah.net em agosto 31, 2011 - 4:57 pm

    Revista Confraria
    Arte e Literatura
    http://www.confrariadovento.com

  5. #5 por Anonymous em setembro 6, 2011 - 2:21 am

    Villa: a falta de uma mensagem de recebimento, depois de postado o comentario, deixa a gente no ar, sem saber se conseguimos. Agora mesmo, postei de um jeito que não sei se foi recebido, por isso vou mandar de novo.

    Olá Villa!

    Fazendo uma busca, agora no google, para localizar uma publicação em meu nome, vi só agora que você recebeu meses atrás o meu comentário aqui no seu blogue. Quando escrevi fiquei com a impressão que o mecanismo do site não tinha processado, pois não veio a mensagem de recebimento.

    Bem, estou de volta, de novo para felicitá-lo. Pois merece aplausos o seu comentário de ontem, no jornal da tv cultura, sobre o aniversário do Maluf.

    Ali você disse tudo em menos de um minuto, de um jeito fantástico, pois mos coloca a todos numa sinuca de bico! Tomara que uma destas emissoras de tv te dê um espaço diário, como o do Jose Neumane Pinto,nO sbt, ou Arnaldo Jabor, na Globo, pois assim como você consegue dizer muita coisa refexiva em pouco tempo.

    Sobre o assunto desta sua entrevista, tenho me perguntado se certo comentário, que o governo ds EUA fez, na época das primeiras eleições no Iraque – de que a médio e longo prazo aquilo ia gerar um efeito dominó nos demais países Arabes – cuja populações também exigiriam regime democrático e eleições – se de fato pode-se creditar aos EUA o que vemos hoje naqueles páises, ou é balela dos yanques?

    No mais, num hobbie recente, de escrever contos e crônicas, venho também fazendo resenhas, de teses acadêmicas e artigos especializados, sobre a questão das drogas no Brasil, e aproveito para colocar o endereço do indice com as sinopses deste artigos, o que dá para ter uma ideia abrangente do que se esta discutindo hoje na macro esfera.

    Fiz também um texto na linha teológica, sobre a crise da PUC em 2005:ficou muito longo, mas faz um apanhado histórico da Universidade onde nos conhecemos. Textos de um amador, mas que envolveu certa pesquisa.

    http://www.recantodasletras.com.br/escrivaninha/publicacoes/index.php

    Meu email é pacaembu400@yahoo.com.br.

    Abraço do Roberto e parabéns por seu importante trabalho.

(não será publicado)



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